A cada dia tudo piorava,a cada amanhecer aquilo que me perturbava crescia um pouquinho.Eu tive a prova naquele treino que realmente estava apaixonado por ele,agora não havia saída.Ceder ou resistir?Pensando bem ,nenhuma das alternativas,não possuía forças pra qualquer coisa,estava confuso,precisando de um ombro amigo.Mas quem me entenderia?Nem o Renato continuaria sendo meu amigo se eu contasse que me transformei num viadinho.´"Renato,preciso te falar uma coisa:Estou apaixonado pelo Lucas!".Sairia no minímo com um nariz quebrado.Minha carreira de lutador estaria completamente arruinada,minha família me odiaria,meu pai me odiaria,meus amigos me abandonariam e quem ficaria do meu lado?Um hetero?Mas como um rapaz hetero encararia outro daquela forma?Tenho a convicção que ele sentiu o mesmo que eu,aliás seu olhar foi propositalmente,foi dele a iniciativa.As ruas iluminadas passavam velozmente,com suas buzinas,vozes e ocupações.Não sabia onde ir,queria ficar só,pensar um pouco,tirar de mim a sufocante dúvida que não me deixava respirar.
Sempre apreciei o mar,desde criança gostava,talvez seja por meu irmão ter sido um grande surfista.Ele amava as ondas e todo o fim de semana batia no meu quarto bem cedinho.- E aí moleque,vamos ver o mar?Perguntava sem me deixar escolhas.Já sabia onde ir.Peguei a estrada leste e fui em direção ao litoral.A orla da minha cidade era maravilhosa,tanto de dia como a noite você se impressionava com a beleza das praias .Com hotéis onipotentes não muito altos á poucos metros de distância da praia.Pessoas que caminhavam e corriam distraidamente,sem pensar em problemas ou compromissos.Os ventos e o barulho das ondas traziam paz,relaxava.Eram quatro praias grudadinhas uma na outra,Pajuçara,Jatiúca ,Ponta Verde e um pouco mais a frente a de Cruz das Almas,meu irmão adorava todas,mas surfava na última, tinha ondas maiores e era o point dos surfistas.Estacionei perto de um barraca de comidas tipícas,a lua servia como um holofote para aquele mar maravilhoso,tudo ficava prateado e no céu não se via um estrela,negro e elegante era o céu de Maceió.Tirei os sapatos e inspirei o ar que vinha em minha direção,afoguei meus pés na areia,sentindo cada grão caminhei e há poucos metros de distâncias da borda do mar sentei.O barulho das ondas pareciam um sinfonia,afinada num ritmo suave e as vezes grave.Como eu queria que ele estivesse vivo agora.Por que partiu tão cedo e tão dolorosamente?Me abandonou,prometeu cuidar de mim pra sempre,mas um mortal não poderia cumprir tal promessa.Ficou doente tão rápido,mas mesmo assim pegava sua prancha escondido e só chegava no outro dia,por mais que papai e mamãe reclamassem a única resposta ouvida era:"Cada vez que surfo,me sinto mais forte,o mar cura e me purifica.Estou pronto pra o que vier."Dava um sorriso e saía sem mais palavras.Com certeza ele era um ser humano sublime,único e especial,pra mim mais que qualquer outro.Lembro-me das brigas que meu pai tinha com Mateus,em uma delas empurrei a porta do quarto e gritei com lágrimas nos olhos:"Você só está piorando as coisas,eles precisa da nossa ajuda,não dos seus sermãos,por que maltrata tanto ele?Por que?Correndo me abraçou e disse:"Vai ficar tudo bem!"As suas palavras me deixavam seguro.Quando eu tinha 13 anos de idade,meu irmão começou a dormir fora de casa,sempre estava saindo,acabara de completar 18 anos e começava a faculdade,meu pai se preocupava achando que essas saídas exageradas prejudicariam seus estudos.Mas mesmo preocupado,não brigava,apenas alertava.Até que um dia ele saiu sem avisar,não falou nada e depois de duas horas voltou,estava um pouco bêbado,com olhos inchados e vermelhos,foi ali que vi pela primeira vez o meu pai chorar.
-Pai o que foi que aconteceu?Levantei do sofá,olhando assustado aquela lamentável cena.
-Não pode ser,não acredito,isso não é verdade.Ele murmurava em meio as lágrimas.Minha mãe chegando da cozinha,após avista-lo correu e segurou seu rosto.
-Carlos,o que houve?Por que você bebeu?Fala pra mim por favor,você foi assaltado, onde estava até essa hora?Sem encara-la respondeu bem baixinho,só consegui ouvir o nome do meu irmão.Minha mãe ficou pálida,estava horrorizada com o que papai acabara de falar.
-O que aconteceu com meu irmão,fala pai,por que você está assim mãe.Comecei a pensar no pior,será que tinha sofreu um acidente?Minha mãe sem saber o que falar respondeu: -Calma filho está tudo bem com seu irmão,seu pai apenas bebeu demais.Vamos Carlos,vá tomar um banho e mudar essas roupas,daqui a pouco irei pra o quarto e conversamos.
-Mas ouvi o nome do Mateus.A senhora está me escondendo alguma coisa.Já estava a beira do desespero,até que papai falou em alto e bom tom:
-Não disse o nome do Mateus,contei pra sua mãe que estava num bar com meus amigos de trabalho.Matias,foi o nome que você ouviu,um dos que trabalham comigo no escritório.
-Mas porque o senhor está chorando?Respondi com medo da resposta,meu pai não era de demonstrar sentimentalismo,tanto que nunca vi um lágrima do seu rosto,mal sabia eu que veria mais vezes aqueles olhos profundos e verdes chorarem.
- Estou emocionado,no bar conversamos sobre nossas vidas,nossa infância e me emocionei,foi isso.Agora vá pra o seu quarto e se quiser espere seu irmão chegar já que não acredita em mim.Vai ver como ele está bem e muito bem.Senti uma ponta de ironia da sua parte,mas me convenci.Dei Boa noite e fui me deitar,mas não dormir,esperei Mateus chegar pra ver com meus próprios olhos.Eram 3 da manhã quando ouvi o barulho do seu carro.Sai correndo pelas escadas,ele se assustou ao me ver na porta.Ele estava usando um jaqueta de couro preta,sobre a camisa listrada.Seus cabelos escuros,lisos e curtos estavam um pouco assanhados,mas continuavam com o mesmo charme.Olhou-me com aquele rosto bronzeado e os olhos castanhos.Tinha um metro e setenta e oito,boa aparência e lábios bem vermelhos como maçãs.
-Opa guri acordado essa hora?
-Está tudo bem com você?Perguntei,sem mostrar preocupação.
-Por que não estaria?Ele respondeu rindo e tirando um embrulho do bolso.
-O que é isso?Perguntei não segurando a curiosidade.
-Comprei pra você!Abriu o envelope que parecia ser muito frágil e tirou um correntinha de prata.Era sútil e muito bela,um pingente em forma de prancha de surfe balançava abobadamente sobre a mesma.
-Nossa é muito lindo!É sério que é pra mim?Fiquei tão feliz que o esqueci a preocupação,coloquei no pescoço aquela frágil correntinha que se aconchegou no meu como se fosse feita exatamente pra mim.
- Tenho uma também,é um símbolo da nossa irmandade e amizade ok?Abriu a camiseta e pude ver a mesma corrente,sendo que um pouco mais grossa.Passou a mão nos meu cabelos e disse:- Agora vá dormir,que amanhã você tem colégio.Mas antes me responde uma coisa.Por que você me perguntou se estava tudo bem comigo?
- Por nada.É que papai chegou um pouco bêbado em casa e achei que tinha acontecido algo,como você estava fora,achei que...
-Achou que eu tinha morrido?Completou rindo.
-Não..não.
-Estou brincando moleque.Obrigado pela preocupação,mas estou ótimo.Mas que estranho o papai ficar bêbado.Ele parou,como se pescasse alguma coisa da mente,mas desistindo de pensar ,pôs os braços sobre meus ombros e me acompanhou até o quarto.
- Até amanhã guri!
-Até maninho, e obrigado pela corrente.Respondi ficando vermelho.Ele deu piscadela e foi dormir.
Depois daquele dia tudo mudou em casa.Meu pai ficou estranho e mamãe sempre entrava no quarto pra conversar com Mateus.Nunca soube o conteúdo das conversas e quando indagava alguém sobre o assunto todos me diziam que era uma simples conversa de pais para e filho.Simples preocupações.Mas no fundo eu sabia que não era verdade,mas nem meu irmão me contava nada,respondia da mesma forma quando eu perguntava.Seis meses se passaram e a situação ficou insuportável,tanto que meu irmão saiu de casa.Papai já não lhe dirigia a palavra e peguei minha mãe muitas vezes chorando,sem saber o que fazer.Foi muito duro ver Mateus saindo de casa,pedi-lhe que não me abandonasse,mas ele me respondeu que era apenas por alguns meses e que logo estaria de volta.Ele voltou um ano depois,durante o tempo que estava ausente me visitava quando papai estava no trabalho.Passou a morar conosco denovo e tudo aos poucos voltava ao normal,apresentou-nos sua namorada;uma garota loira,com olhos bem escuros e sobrancelhas delicadas,seu andar tinha graça,parecia um garça desfilando,era realmente linda.Papai aos poucos voltara a lhe dirigir a palavra,e mamãe sorria mais frequentemente.Mas a alegria durou pouco,depois de alguns meses Mateus ficou doente,uma anemia muito grave consumia-o aos poucos.Passaram-se alguns dias e ele morreu.Foi um choque pra todos,principalmente pra mim,minha vontade era ser enterrado junto,achei que nunca mais seria feliz.Papai entrou em depressão,não comia,mal dormia,sempre repetia que a culpa disso tudo ter acontecido era dele.Ninguém era culpado por doença nenhuma,mas ele não se consolava e depois da morte de Mateus,passou mais tempo fora de casa e isso acabou me afastando um pouco dele.Foi assim rodeado de lembranças que esqueci meus problemas.Acendi um cigarro e fumei observando a lua.- Onde ele estar agora?Perguntei pra mim mesmo.Não sabia.Mas sentia-o comigo,me observando e cuidando de mim.
Uma voz familiar soa atrás de mim.-Ricardo!Virei-me e avistei Mônica,segurava um bolsa vermelha e segurava os saltos na mão.
-Tentei ligar pra o seu culalar,mas só dá na caixa postal.Disse abraçando-me.
-Acho que descarregou,nem reparei.Mas como você me achou aqui?
-Liguei pra o Renato,ele me disse que você saiu do treino chateado.Não sabia onde você estaria,mas me indicou a praia.
- Ele me conhece como a palma da mão.Respondi,lembrando da sua cara confusa ao me ver deixando o treino.
-Graças a Deus te achei,estava tão preocupada.O que houve?Por que saiu do treino sem avisar nada?
-Fiquei chateado,queria ficar só e vim pra cá.A visita ao mar me fizera tão bem que a raiva havia passado completamente.Fui imaturo ao sair daquele jeito,precisava concertar as coisas.Mas não hoje nem agora.
-Vamos pra casa?Quer ir pra minha ou te deixo na sua?
-Vamos pra sua casa,quero ficar com você e lá me explique melhor como tudo aconteceu.
-Ok!Respondi sorrindo.Nos beijamos e fomos embora.A lua dormia sobre as nuvens,meus pensamentos dormiam junto com ela,mas a paixão ainda queimava viva dentro de mim.
